Data: desconhecida.
Local: praia de região temperada.
Ele parecia ser um homem com umas três décadas de vida. Tinha na pele bronzeada algumas marcas do tempo, escondidas entre a espessa barba negra e as largas sobrancelhas. Seu cabelo estava endurecido pelo sal do mar e chegava aos seus ombros. Vestia apenas o que uma vez havia sido uma calça de linho, agora rasgada até pouco abaixo do joelho de um lado e um pouco acima do outro. O vento da alvorada resvalava com força em seu rosto enquanto observava o nascer do sol, sentado na fina areia escura. Quem o visse observando o horizonte com seus olhos negros, diria que estava em qualquer outro local que não aquele.
Um homem idoso vestindo trapos e uma touca azul desbotada, carregando uma vara de madeira que usava para se apoiar e uma grande sacola nas costas aproximou-se dele.
- Perdido, senhor? – disse o homem com a vara.
Não obtendo resposta, o velho sentou-se ao lado do homem de barba e juntou-se a ele em sua contemplação silenciosa. Depois de o sol submergir por inteiro, o homem de barba finalmente pareceu notar a companhia.
- Davi. – falou com a voz rouca e baixa.
- O senhor está perdido? – retrucou o velho pacientemente.
- Não lembro a última vez em que não estive. – disse o homem, ainda perdido em seus pensamentos.
- Eu lembro. Eram bons tempos, senhor. Havia euforia em cada amanhecer e ao dormir se esperava ansiosamente que novidades o próximo nascer do sol traria.
- Não tenho mais o que esperar, Davi. Já cansei de lhe dizer. O sol já não trás a beleza da vida. É apenas um contador, não me deixando esquecer que a areia nunca para de escorrer.
- Como você espera se divertir no passeio, se durante todo o percurso se entristece com a aproximação do seu fim?
Um curto silêncio se deu e o homem de olhos negros fitou o idoso maltrapilho impacientemente.
- Antes o fim logo chegasse, não é ele que temo. Você bem sabe que deixei de temê-lo a muito tempo. Não temo mais nada que costumava me apavorar. Talvez seja o medo parte essencial para se ter o que a tanto perdi.
O velho a qual o homem chama de Davi, segurou as palavras que ia falar, lançou um olhar piedoso sobre o homem de olhos negros, levantou-se e reiniciou sua lenta caminhada pela praia.
Resignado, o homem volta a observar o lento percurso do sol.